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Qualquer guitarra, para um aprendiz, é uma obra de arte. Senti isso quando comecei a tocar, ainda no violão de nylon. A guitarra, então, parecia um lugar distante. Mas havia um atalho dentro da minha casa.

Meu pai guardava, atrás da porta do seu escritório, um tesouro. Um case preto com a guitarra que usara em sua juventude. O próprio cômodo, em minha inocência infantil, era um templo misterioso. Mesmo sendo um quarto minúsculo, nos fundos de uma modesta área de serviço. Ali ele se resguardava por horas entre trabalho, livros, papéis, fitas cassete, rádio e violão.

Abrir o case da guitarra era um ritual destinado a poucos momentos. Quase um segredo. O instrumento, em seu cinza azulado, parecia resplandecer — como se carregasse tudo o que a música prometia.

Um punhado de tempo depois, foi a minha primeira guitarra. Plugada a um robusto amplificador Ciclotron, alimentou meus sonhos e a excitação do rock. Com o instrumento pendurado no meu pescoço, junto ao peito, montei uma banda e descobri os calafrios do palco. Mas, aos poucos, fui percebendo que ela era meio…estranha.

A guitarra é pequena: o braço é estreito, pouco adequado aos dedos de um adulto. Já seu comprimento, em comparação ao corpo, parece desproporcional. Ela é menor que uma guitarra convencional e tem três botões pretos grosseiros e duros. Para completar, está sem o controle de volume, comido pela Linda, uma cocker amalucada.

Givtone do meu pai - arquivo pessoal

Por anos, sua origem foi incerta. Nos anos 70, ela tinha sido emprestada por um amigo do meu pai — que só sabia que era japonesa e comprada no exterior. A marca era apenas um adesivo colado, que se perdeu em algum lugar. Mas a memória guardou o nome: Givtone. Que raios de marca é essa?

A pista aponta para o Japão dos anos 60. O país ainda carregava as marcas do pós-guerra e buscava caminhos para se reconstruir. A produção de instrumentos musicais foi uma opção. Enquanto as americanas Gibson e Fender consolidavam seu prestígio, uma leva de guitarras japonesas começava a surgir — Teisco, Kawai, Guyatone, Audition, Zen-On.

O resultado foi um mercado fragmentado, com centenas de modelos em circulação. Um mesmo instrumento podia atravessar fábricas, catálogos e países com nomes diferentes. A produção nasceu em oficinas pequenas, muitas vezes individuais e artesanais, com forte improviso técnico. Ainda assim, cresceu rápido: de 1962 a 1965, o Japão saltou de 20 mil para 767 mil guitarras1.

Boa parte era vendida em lojas de departamento e catálogos, disputando atenção com móveis, eletrodomésticos e outros artigos. Por isso, precisava ser chamativa. A solução foi o excesso: guitarras de formas inusitadas, por vezes com elementos bizarros — como quatro captadores e muitos botões — e cores impactantes. Daí a estranheza que senti com a do meu pai. E eram instrumentos baratos, de qualidade irregular, destinados a aspirantes.

O livro “History of Japanese Electric Guitars”, de Frank Meyers, associa a Givtone à Teisco Gen Gakki — fábrica ligada à Teisco Co. Ltd., marca mais conhecida daquele período. Pesquisas na web reforçaram a existência da marca Givtone, com anúncios de modelos semelhantes com imagens do adesivo original2. Mas essas informações, em vez de encerrar a dúvida, ampliaram o labirinto. 

Outras fontes sugerem fabricação pela Zen-On3; ou mostram instrumentos quase idênticos vendidos sob marcas diferentes, como Audition4. Esses achados reforçam a lógica daquele mercado: a mesma guitarra, ou quase, atravessando o mundo com outro nome. 

É possível que o nome Givtone tenha sido uma marca de loja de departamentos ou vendas via catálogo5 . Em tese, não havia uma fábrica com esse nome — embora eu tenha encontrado equipamentos eletrônicos com essa nomenclatura6 7

Na bagunça de marcas japonesas dos anos 60, a Givtone aparece listada ao lado de dezenas de outras etiquetas igualmente enigmáticas. O sumiço do adesivo da guitarra do meu pai não foi acidente — era, de certa forma, a natureza desse mercado. A marca era descartável por design.

No fim das contas, esses instrumentos cumpriram o papel de despertar — ou aprofundar — o interesse de muitos jovens músicos, como meu pai. E, 20 anos depois, eu. Hoje, seguem presentes entre colecionadores e entusiastas, integrando o universo das chamadas space age guitars. O que antes era apenas barato e descartável virou objeto de desejo. 

E eu continuo com a velha Givtone — agora atrás de outra porta. E sem tanto mistério.

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PS: Têm informações factuais adicionais para este texto? Conhece ou tem alguma guitarra Givtone? Mande para [email protected]

Referências Principais:

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