chat gpt depois de midjourney

“Se a música é o alimento do amor, que continue tocando.”*

Era um garoto, que como eu, amava os Beatles…

Era um garoto baixo e troncudo. Seus cabelos longos, alisados por meia de seda. Como eu, amava os Beatles. Empunhava uma pequena guitarra japonesa curtindo a banda de amigos, Kleofa. A música dava cores à juventude. Ouvia discos de vinil de sua pequena coleção — e muitos pegava emprestado. Frequentava shows de bandas cover, febre na época. Ali podia ouvir grandes nomes do rock, como Led Zeppelin, Deep Purple e tantas outras que, naqueles tempos, nem em sonho viriam para o Brasil. Assistiu aos Secos e Molhados no começo. E Elis Regina. Esse foi meu pai, nos anos 60 e 70. Mais tarde, meu canal de entrada para a música.

Meu lar sempre teve trilhas sonoras. Meu pai manteve viva sua paixão — através do rádio, fitas K7 e violão. Minha mãe me amamentava ao som do vinil Caçador de Mim, do Milton Nascimento. Anos depois, eu e meu irmão ficamos obcecados pelo Guns n’ Roses na mesma época. O ciclo seguia.

Assim, foi natural minha conexão com música. Lembro quando ganhei uma fita cassete dos Beatles — guardo até hoje por pura memória afetiva. Eu a ouvia em um Sharp QT12 portátil, parceiro de todos os lugares e paixão por muitos anos. Naqueles tempos, um radinho com gravador era nossa maneira de reunir canções favoritas. Precisava de agilidade: apertar o REC logo quando a música começava a tocar na rádio FM ou até na AM.

recriação do Sharp QT12 pelo chatgpt

O passo seguinte foi aprender violão. O primeiro professor? Aquele baixinho troncudo — vinte anos depois. Me ensinou “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones…”. Lançada na Itália, em 1966, ganhou versão em português com Os Incríveis. Mas a que aprendi foi a dos Engenheiros do Hawaii — um hit no começo dos anos 90.

Um ano depois, ganhei meu violão. Ainda lembro do dia. Em casa, num começo de noite entre a primavera e o verão. Desci a pequena escada acarpetada fingindo não ter pressa. Quase no último degrau, avistei deitada no sofá da sala aquela capa preta cheia de promessas. Quando abri, senti o cheiro de madeira nova. Foi inebriante. Era um Di Giorgio modelo Clássico no 28, que tenho e toco até hoje. A partir dali, não tinha mais volta. A música cravou no meu coração.

Trombando com a escrita

Essa história é contada em muitos capítulos: bandas, aulas, shows, discos, descobertas. Alguns deles serão abordados neste site. Mas, em algum momento, a música trombou com a escrita. Minha “primeira fase”, como muitos, começou no jornal da faculdade. Na “segunda”, de 2005 a 2012, colaborei com o site Digestivo Cultural, do Julio Daio Borges, um dos ícones culturais entre os anos 2000 e 2010. Escrevia com uma proposta mais crítica e de cobertura. Assinei como Rafael Fernandes — havia outro Rafael Azevedo entre os colaboradores.

A “terceira fase” uniu escrita e voz. Entre 2009 e 2015 lancei um podcast de música com meu grande amigo Diogo Salles chamado Tungcast. Ampliamos o formato para um site de textos, o Geek Musical. Ambos foram desativados após cumprirem seu papel. Chegamos a 100 episódios do podcast — e muitas fornadas de artigos. Em 2012, escrevi duas matérias para o Estadão a partir de entrevistas por telefone: uma com Slash (sobre seu álbum Apocalyptic Love) e outra com Zakk Wylde (divulgando seus shows no Brasil).

Agora, considero esta a “quarta fase”: um recomeço. Depois de mais de uma década sem escrever, bateu aquela saudade. Desta vez, porém, sem pressa, críticas, obrigações ou agenda. Textos reflexivos, com o mínimo de distração. Prioridade ao texto. E quem sabe criar uma pequena comunidade de pessoas interessadas em compartilhar afetos, histórias, personagens, e o prazer de ouvir e sentir.

Acomode-se, ligue seu som e fique à vontade. Este site é para os que também não vivem sem música.

Rafael Azevedo
semibreve

 *Orsino - Duque de Ilíria - Primeiro Ato, Cena 1 - William Shakespeare, Noite de reis

Original: If music be the food of love, play on.”

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