
Midjourney
1991. No banheiro de uma pequena casa geminada, eu ouvia rádio FM em um aparelho Sharp QT12. Dentro dele, uma fita cassete esperava novos sons para completar uma mixtape. Logo tocou a música que eu queria. Apertei REC e PLAY juntos. Uma fração de segundo depois, lembrei que a fita não estava no ponto certo. Apertei STOP, mas o estrago estava feito. A música anterior ganhou um segundo da próxima — e um 'Ai!' meu no meio. Apertar o REC parece inocente hoje, mas poderia ser considerado pirataria na mente de um executivo obcecado. Poderia, não. Foi.
Em 1981, Chris Wright, o presidente da BPI (British Phonographic Industry), anunciou na Inglaterra a campanha "Home Taping Is Killing Music". Os álbuns ganharam um selo: caveira, ossos cruzados, silhueta de fita cassete. E as palavras "And It's Illegal". [1] A BPI também colocou anúncios em jornais, com assinatura de apoio de diversos artistas, como Elton John. [2].
Enquanto isso, nos EUA, o presidente da RIAA, Stanley Gortikov, ecoou o discurso: gravar fitas seria "uma flecha direto no coração" da indústria. Um executivo de comunicações da Warner definiu a prática como "a pior das sete pragas que o negócio da música enfrenta". [2] Para eles, aquelas fitas que você cultivava, via rádios ou amigos, estavam tirando dinheiro de produtores e artistas.
Andrew J. Bottomley, em um paper, leu essa abordagem como “pânico moral”. É um conceito do sociólogo Stanley Cohen[2], em que uma prática comum passa a ser apresentada como uma ameaça social e, por isso, deve ser combatida. Todo pânico moral precisa de um vilão. Nos anos 1980, foi um adolescente com um toca-fitas e uma fita virgem no bolso.
Durante a década de 80, o foco da mensagem mudou de endereço, passando do quarto de adolescentes para os escritórios de executivos: os fabricantes de fitas virgens e equipamentos de gravação. Agora, para as grandes gravadoras, eles é que eram a praga. Gortikov voltou à carga: "Abra uma fita cassete: é plástico, filme, óxidos, eixos. Inútil por si só. Só tem valor quando grava nossa música." [2]
A batalha deixou de ser apenas simbólica: em 1992, ganhou força de lei. O Audio Home Recording Act (AHRA) criou taxas sobre equipamentos e mídias digitais e inaugurou uma nova forma de lidar com a cópia doméstica: parte do controle passou a ser embutida na própria tecnologia. [3][4]
Mas de onde vinham os dados para reforçar toda essa narrativa? Muitos estudos sobre perdas divulgados eram produzidos, financiados e, principalmente, amplificados pelas associações que representavam as grandes gravadoras. [2] Mediam "perda de receita" — não lucros ou royalties efetivos —, o que podia superestimar o prejuízo real, e sem considerar efeitos de preço ou demanda. [5] Mas o problema estava na premissa: cada gravação equivalia a uma venda perdida. Será?
Se eu gravasse "Used to Love Her" da rádio, eu deixaria de comprar um disco do Guns N' Roses? A indústria diria que sim. E erraria: comprei e compro até hoje. Mas e, talvez, se fosse "Eye of the Tiger", do Survivor? Nunca comprei nada deles. Para além da minha experiência, os dados eram conflitantes. Era uma tese difícil de comprovar.
As fitas viraram as culpadas, e é provável que houvesse alguma perda pela pirataria. Mas havia a recessão global, inflação, discos mais caros e piores. Depois da crise do petróleo de 1973, as gravadoras começaram a produzir com vinil reciclado e mais fino.[2] Ouvintes notaram — alguns pararam de comprar.
A concorrência com os discos não era só das fitas cassete — originais ou não. Aqueles mesmos garotos que curtiam música aos poucos foram tendo videogames, VHS, TV a cabo e a nascente MTV disputando sua atenção — e dinheiro.[2] Até a saturação natural do mercado foi levantada como hipótese: as pessoas simplesmente podiam já ter comprado os discos que queiram.[6]
Em vez de perguntar por que tantas pessoas gravavam músicas em casa, a indústria concentrou seus esforços em impedir esse comportamento. E não viu o sinal de mudança ali.
As fitas cassete deram uma opção aos ouvintes: podiam montar suas próprias coleções sem depender do formato escolhido pela gravadora. E havia ainda a conveniência trazida pelas fitas em relação ao vinil: ouvir no carro ou num walkman. As pessoas queriam personalização e comodidade — décadas antes de playlists ou Spotify. A indústria viu pirataria. Podia ter visto uma necessidade ainda sem nome.
No fim, pouco importava quem tinha razão nos números. O estrago estava feito. Ao combater o comportamento, as empresas acabaram perdendo a oportunidade de entendê-lo. Queriam jogar à ilegalidade quem amava ouvir música — e esse tipo de acusação não se esquece.
Fico imaginando o grande perigo que meu eu de dez anos devia ser para a indústria. Mantinha minha pequena coleção organizada num porta-fitas do Batman do Tim Burton, com umas três fitas originais — o possível de comprar. E mais algumas compiladas do rádio: coletâneas, especiais temáticos e shows.
Tratava aquilo com o maior capricho que conseguia. Não tinha mais fitas originais porque não tinha dinheiro para comprar. Falo de mim, mas eram milhares de crianças e adolescentes na mesma situação.
Colecionávamos nossos sonhos. E essas campanhas desconfiavam deles.
Referências
1 https://en.wikipedia.org/wiki/Home_Taping_Is_Killing_Music
2 https://www.andrewjohnbottomley.com/s/Bottomley_HomeTapingIsKillingMusic_2015.pdf
3 https://en.wikipedia.org/wiki/Audio_Home_Recording_Act
4 https://www.govtrack.us/congress/bills/102/s1623/summary
5 U.S. Congress, Office of Technology Assessment. Copyright and Home Copying: Technology Challenges the Law. OTA-CIT-422. Washington, DC: U.S. Government Printing Office, outubro de 1989. p. 10, nota 21. - https://www.princeton.edu/~ota/disk1/1989/8910/891003.PDF
6 https://musicbusinessresearch.wordpress.com/2010/03/29/the-recession-in-the-music-industry-a-cause-analysis/
