
Imagem: Midjourney ↔ Chat GPT
Nossas memórias musicais mais profundas moram na juventude, quando o tempo é mais livre e a cabeça mais presente. Me lembro de um entardecer em 1994, numa excursão de escola. Depois de uma feira do livro e antes da volta ao interior, o roteiro nos levou ao Shopping Eldorado, na capital paulista. Me separei do grupo e entrei em uma pequena, mas diversa loja de CDs — com dinheiro contado.
Fiquei um tempão contemplando e tateando aqueles pequenos universos em acrílico e policarbonato e escolhi Please Please Me, o primeiro álbum dos Beatles. Eu sonhava em completar a discografia deles. Nessa época, ainda havia a expectativa de procurar e comprar um disco, junto com a de chegar em casa tarde e só conseguir ouvir no dia seguinte, depois da aula. Esperar horas para ouvir a música que já compramos — hoje, é inimaginável.
Numa outra lembrança, andava pela Feira de Antiguidades da Praça Dom Orione, no Bixiga, centro de São Paulo. Eu e meu irmão apressávamos nossos pais — precisávamos voltar para casa. O motivo: a estreia de um videoclipe na MTV naquela hora exata. Se perdêssemos, sabe lá que outro dia conseguiríamos assistir de novo. Música com data e horário marcados — sem saber quando teríamos outra chance.
Mas o tempo passa, a cabeça enche e o mercado muda. Hoje, temos todos os discos dos Beatles em streaming, em suas inúmeras versões. E o YouTube nos revela outros tesouros dos quatro de Liverpool — e de tantas outras bandas — em qualquer hora. Tudo isso no bolso, num dispositivo um pouco maior que uma fita cassete.
O streaming pode ser um pesadelo na remuneração dos artistas — e esse é um tema para outro texto.
Mas é o sonho dos amantes de música: uma biblioteca milionária ao custo de um disco por mês — ou muito menos se compararmos a discos importados.
Há o perigo de ficarmos presos a um ciclo sem fim: depender do algoritmo, naufragar no excesso de escolha e cair no dopamine scrolling — navegar compulsivamente em busca de estímulos rápidos e prazer instantâneo.
Entretanto, ter um acervo quase inesgotável à disposição ainda compensa as perdas: para nós, musicólatras, a descoberta é eterna enquanto há vida.
Colecionar, por outro lado, pode ser ao mesmo tempo uma aventura e um refúgio. A aventura da descoberta ao acaso — fora dos algoritmos. E o refúgio dos excessos e do imediatismo do streaming. Mas a mídia física é uma canoa diante do mar de sons por onde um musicólatra quer navegar. O ponto central: agora temos poder de escolha.
Comprar discos para ouvir uma ou outra música — ou apenas para conhecer uma banda ou álbum — hoje parece um luxo, um desperdício. Os fãs agora escolhem: streaming, download, CD, vinil, fita cassete. Antes, possuir era condição de acesso; hoje, virou opção.
A mídia física não é mais o centro do mercado, mas nunca morreu — até cresce, embora de forma tímida. No primeiro semestre de 2026, as vendas de vinil nos EUA aumentaram 2,4%¹. Não é muito, mas ganha peso quando olhamos para a receita global: alta de 13,7% em 2025 — e crescimento pelo 19º ano seguido².
O caso do CD é mais surpreendente: a receita global cresceu 3,7%² em 2025 e as vendas nos EUA, no primeiro semestre de 2026, aumentaram 16%, chegando a 16,3 milhões de unidades¹. O número foi impulsionado pelo álbum de retorno do BTS — Arirang — e outros lançamentos do K-Pop. À parte desse fenômeno, as vendas ainda aumentaram 6,7%2.
Uma curiosidade: entre os compradores de CD da Gen Z e dos Millennials, cerca de metade sequer tem um tocador1. Se já não precisamos possuir discos para ouvi-los, por que continuamos comprando-os?
A Luminate sugere que essa mídia foi “recontextualizada de um formato de áudio funcional para um item de colecionador com preço acessível”¹. O objeto físico deixa, então, de ser apenas um meio para ouvir música e se torna um símbolo de conexão com os criadores — memorabilia.
E se parte desse movimento fosse uma resposta à própria abundância? Uma forma de aliviar a fadiga do virtual?
E, a partir daí, buscar uma relação mais contemplativa com a música: esperar mais e querer menos. Criar vínculos com comunidades em encontros, sebos, feiras e lojas de discos. E descobrir álbuns improváveis, invisíveis aos algoritmos. Daqueles que surgem de uma dica de vendedor. Ou os que vêm da paixão pela capa.
Não precisamos voltar a 1994. Podemos desfrutar do que o streaming proporciona e reviver, sob outras formas, algumas experiências que se perderam. As mídias físicas se tornam, então, um possível antídoto — mesmo que pontual — para a compulsão do virtual.
Referências:
1 LUMINATE. 2026 Midyear Music Report. 2026. Disponível em: https://luminatedata.com/reports/midyear-music-ftv-report-2026. Acesso em: 25 ago. 2026.
2 IFPI — INTERNATIONAL FEDERATION OF THE PHONOGRAPHIC INDUSTRY. Global Music Report 2026: State of the Industry. 2026. Disponível em: https://www.ifpi.org/wp-content/uploads/2024/03/GMR2026_SOTI2.pdf. Acesso em: 25 ago. 2026.
