
Midjourney
“Para mim, a música é uma linguagem de sentimentos. É uma forma de comunicar o que uma pessoa sente e fazer com que outra pessoa experimente esse mesmo sentimento”. [1]
Esse aforismo é de Max Richter. Sua obra mais famosa, “On The Nature Of Daylight", mergulha nesse conceito. Originalmente uma peça anti-guerra, ganhou novos sentidos em filmes como A Chegada e Hamnet. Hoje, milhares de pessoas já conhecem sua música — ainda que não saibam quem ele seja. Mas nem sempre foi assim. Ele começou como um outsider.
Richter não era bem visto no universo da música clássica. Nem a via com bons olhos — uma cultura com muitos “não pode". Sua obra, considerada mais “simples”, refletia seu interesse pelo minimalismo: “Já enfrentei um completo desprezo da crítica, e depois vieram críticas dizendo que ‘isso não é música clássica de verdade’”[2]. Muitas orquestras não queriam tocar seu repertório.
Assim, o compositor passou a gravar suas obras — e alcançar o público diretamente. Suas músicas trazem influência do pop. Não em estética. Em ser direto e claro: “quando você fala sobre algo, quer se fazer entender. Não faz sentido escondê-lo atrás de uma enorme complexidade”[2]. Essa abordagem torna sua música empática.
O reconhecimento demorou. Começou com seu segundo disco, The Blue Notebooks, indicando que seu público estava fora do circuito tradicional da música clássica. Um disco pensado como crítica às guerras começou a se espalhar em alguns círculos. E havia uma pérola: “On The Nature Of Daylight". A música apareceu na trilha de Mais Estranho Que A Ficção. A partir dali, ganhou novos sentidos e alcançou um público mais amplo.
Hamnet e o poder da trilha sonora
Os discos de Max Richter soam como trilhas sonoras sensíveis. Foi natural começar a compor para séries e filmes, como Ad Astra, My Brilliant Friend e, recentemente, Hamnet. O filme, dirigido por Chloé Zhao, carrega na dramaticidade — a trilha não precisava. Richter ora sussurra, ora pontua a narrativa.
A música elisabetana foi influência. Pelos compositores, como William Byrd, Thomas Tallis e Thomas Morley, e no uso de instrumentos de época, como nyckelharpa e hurdy-gurdy. Esses sons foram transformados, sem perder a essência: “Fiz diferentes gravações desses instrumentos e depois as transformei em versões abstratas de si mesmos. Assim, em vez de ser apenas um conjunto de violinos tocando, é o fantasma de um conjunto de violinos — um fantasma eletrônico disso"[3].
Um fantasma. A palavra se desdobra em duas dimensões: sonora e metafórica. Na primeira, a trilha fica à espreita do filme, sem se impor. Na segunda, acompanha a narrativa: fantasmas atravessam os protagonistas, em diferentes momentos.
Os coros são de um grupo especializado em renascença e música elisabetana. Novas alterações de som aparecem, para “dar a isso a voz do além, o ‘país desconhecido’ de Hamlet”[4]. As vozes são coadjuvantes: um coro feminino para destacar a protagonista, Agnes. Quando ela entra no teatro, surgem vozes masculinas: uma mudança sutil, indicando que ali é o espaço de expressão de seu marido. O que começa como oposição, termina em reencontro.
Na cena final, “On The Nature Of Daylight” se funde ao filme. Primeiro, porque mudou o desfecho original: a diretora ouviu a música e escreveu outra abordagem — em que a esperança supera a tristeza. Segundo, por colorir a transição do luto à aceitação. A música não resolve o luto — nem outros sentimentos. Os reorganiza.
Citações:
[1] https://www.vanityfair.com/hollywood/story/max-richter-hamnet-on-the-nature-of-daylight-interview
[2] https://www.thelineofbestfit.com/features/interviews/max-richter-always-beginning
[3] https://www.focusfeatures.com/article/connecting-to-the-musical-pulse-of-hamnet
[4] https://filmmakermagazine.com/132512-interview-max-richter-composer-hamnet/
Outras referências:
