
Midjourney
Nota: o texto a seguir tem spoilers
A música não apenas acompanha um filme. Ajuda a moldá-lo. Para além da trilha sonora, pode ser impulso criativo. Foi assim na concepção de Hamnet, dirigido por Chloé Zhao. Adaptação do livro homônimo de Maggie O'Farrell, reimagina a história da morte de um dos filhos de William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley). Uma película com muitas camadas, que nem parece que enfrentou amarras criativas. Contudo, enfrentou. E a música teve papel fundamental em desatar os nós da diretora.
Ainda no início do projeto, ecoaram em sua mente as palavras "Lembra-te de mim, lembra-te de mim…", ouvidas em "When I Am Laid in Earth", de Henry Purcell. A ária foi uma indicação de O'Farrell, a quem Zhao recorreu ao sentir que não conseguia avançar. "Quando as coisas não funcionam na vida, eu costumo recorrer à poesia ou à música — algo mais antigo que o cinema. Algo mais abstrato", contou.¹ A partir daí, as ideias começaram a fluir. E a própria letra parecia espelhar os temas do filme, com seu imaginário de terra, morte, destino e despedida:
"Quando eu for deitada, (...) que minhas faltas não causem (...)
Nenhum tormento em teu peito
Lembra-te de mim, lembra-te de mim, mas ah!
Esquece o meu destino"
Depois da faísca inicial de Purcell, a trilha original brilhou. Ao ler o roteiro, o compositor Max Richter escreveu meia hora de música — de tão intrigado e conectado com aquele universo: "Penso na relação entre o filme e a música como se Hamnet fosse um bebê, e a trilha sonora, o líquido amniótico que o nutre".² Richter enviou esse material à diretora, que tocou exaustivamente nos ensaios e pré-produção. A música, aqui, de fato nutriu: virou textura do mundo que estava sendo criado.
A conexão do compositor com as simbologias não demora a aparecer: "O filme começa com um plano incrível de Jessie Buckley no ventre da floresta, que imediatamente sinaliza nossa conexão com aquilo sobre o que não conseguimos falar (...) Tentei lidar com todas essas grandes ideias na minha música".² A faixa que ilustra essa cena se chama "Agnes" — a protagonista. Essa subversão de tirar Shakespeare do foco é essencial para a narrativa e na criação do universo metafórico e visual.
A escolha de timbres para a personagem foi intencional: "Grande parte de sua música se concentra em gravações de vozes femininas baseadas na linguagem coral do Renascimento, embora usadas de forma muito abstrata e minimalista", disse Richter.³ Muitos desses sons gravados — incluindo de instrumentos antigos, como hurdy-gurdy — foram sampleados e processados eletronicamente para aumentar a paleta de tons.
"O resto é silêncio". O filme terminaria com esta frase icônica de Hamlet, durante a encenação da peça. Mas Chloé Zhao sentiu que não pulsava no coração do filme. Diante do dilema, Jessie Buckley enviou à diretora uma versão de "On the Nature of Daylight", unida a "The Bitter Earth" de Clyde Otis.⁴ Foi ali que a resposta começou a florescer:
"Esta terra amarga
Ah, que frutos ela dá
De que vale o amor
Que ninguém compartilha? (...)
Oh, esta terra amarga
Sim, pode ela ser tão fria?
Hoje você é jovem
Logo demais, você envelhece
Mas enquanto uma voz
Dentro de mim clama
Tenho certeza de que alguém
Pode atender ao meu chamado"
Enquanto ouvia a música no carro, a diretora fez um gesto espontâneo: estendeu a mão para tentar tocar a chuva. "Olhei para a minha mão e percebi que precisava me conectar com algo maior do que eu, para não ter mais medo de perder o meu amor. Porque o amor não morre — ele se transforma".⁴ O gesto virou imagem potente no final do filme: o toque de Agnes no ator que encena Hamlet pode ser entendido como um carinho em seu filho. Transforma o luto em aceitação.
O toque é uma âncora para Agnes, como no contato com a terra — elemento essencial em Hamnet. Nasce de sua relação profunda com a floresta, sua família e a ancestralidade. Essa dimensão também está na trilha de Max Richter: "O que Chloé chamou de energia mística no filme está presente na personagem de Jessie, essa espécie de deusa da terra — e nós realmente quisemos explorar isso".³
Na cena final, o agridoce da versão orquestral de "On the Nature of Daylight" traz um último impulso. No lugar do impulso criativo, o sentimental. A música imerge o espectador na dor dos personagens e traduz a saudade após o luto. Talvez por isso Max Richter siga o conselho do pintor abstrato Mark Rothko de incluir uma dose de esperança em cada obra — "10%, para tornar o conceito trágico mais suportável".⁵
