
Chat GPT
Uma estrada simples, quase sugada pelas árvores à beira. O sol estala o solo e o carro, os ossos. As janelas abertas trazendo o vento quente, de cheiro úmido. E o coração lá, no fim da estrada. No destino da viagem de férias — algum lugar de ampla natureza, de laranjeiras, sabiás, de saborear o vento.
Do chiado de uma fita cassete explodem cores musicais. A voz de Milton Nascimento marca o sentimento no peito. São imagens de minha memória afetiva ao ouvir a música “Fazenda”, de Nelson Ângelo, na versão de Milton. Não sei se são lembranças fiéis, redesenhos da mente ou se a música me ensinou assim.
Pode ser uma memória coletiva. Afinal, nos emocionamos com a criação de uma pessoa desconhecida. Um intercâmbio de almas. Não nos conhecemos, mas sentimos juntos. E ali, no coletivo, o Clube da Esquina ganhou forma. Além da música estavam as amizades, trocas, afetos. Um espaço onde diferentes referências — da música popular à erudita, do interior ao mundo — se encontraram, sem precisar se resolver.
Nelson Ângelo é parte desse fluxo. Cresceu ouvindo de tudo, formando uma linguagem mais intuitiva do que planejada. Ele mesmo diz que compunha imitando sons, aprendendo sem método fixo. “Fazenda”, nesse sentido, nasce quase sem esforço — rápida, direta, fruto da amizade, leituras, trocas musicais.
Mas essa aparente simplicidade não implica superficialidade. Ao contrário, “Fazenda” tem várias camadas. Como o próprio compositor diz: "...simboliza de onde todo mundo vem (…) ela tem esse dom de remeter as pessoas a um tempo bom. Para a alma delas”1.
Essa alma da música, além dos sons, se apresenta em frases como “sede de viver tudo / e o esquecer era tão normal que o tempo parava”. Sentimos os dois lados da fazenda: o palpável, da música, um cenário bucólico. E o metafórico, o interior do Brasil se conectando ao nosso íntimo — nossas emoções. Um lugar, um tempo, um sentimento que ficaram para trás, mas insistimos em não perder.
É com essa emoção que "Fazenda” abre o disco Geraes, de Milton Nascimento. É uma continuidade ao começar com o mesmo acorde que fecha a última música, "Simples”, do disco anterior, Minas. Mas esse caminho se amplia ao trazer mais elementos acústicos e latinos. Milton viaja entre a cidade e o campo, Brasil e América.
Essa viagem, física ou emocional, evoca um sabor da nostalgia utópica típica do Clube da Esquina. A vontade de habitar um tempo que não existe mais, mas que tentamos manter vivo. Pode até ser um engano da memória, mas é o que faz nosso coração esquentar quando o olhar parece frio.
Citações e Referências:
Programa Café lá em casa — Nelson Ângelo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=78ku8We2jYk
COSTA, 2012. [Artigo sobre memória e identidade no Clube da Esquina]. Revista da UFG. Disponível em: https://revistas.ufg.br/fcs/article/download/42382/21341/177711
PAULA, Matheus Barros de. [Dissertação sobre o Clube da Esquina]. Universidade de São Paulo (USP), 2022. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27157/tde-17052022-145145/publico/MatheusBarrosDePaulaOriginal.pdf
ANPUH. [Trabalho sobre música e contexto histórico]. Disponível em: https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548206569_b8c17d33b65337f45e1ea2659704676e.pdf
Discografia Discos do Brasil. Geraes — Milton Nascimento. Disponível em: https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/geraes
Rádio Cultura Brasil. Minas de uma esquina para o mundo — Geraes. Disponível em: https://cultura.uol.com.br/radio/programas/minas-de-uma-esquina-para-o-mundo/2022/09/30/13_geraes.html
Altamont. Milton Nascimento — Geraes. Disponível em: https://altamont.pt/milton-nascimento-geraes/
