Chat GPT

Deitado em minha cama de tubos verdes, eu sentia a noite quente de verão soprando pela janela. Era 1991. Na TV, uma dança de imagens. Ora a Cidade do Rock, no Brasil; ora a cidade em chamas, no Iraque. Eu acompanhava o Rock in Rio e as notícias em um aparelho de TV Sharp C2008 de 8 canais. Eu só queria ver o New Kids On The Block.

Os rapazes de Boston eram alinhados, sorridentes e comportados. Eu gostava de “Tonight” e “Step By Step”, do disco homônimo de 1990. Sua música, visual e danças simbolizavam a estética da virada da década. Mas, em dado momento, o que me fisgou foi o som — cru, enérgico e potente — de uns cabeludos desalinhados, sisudos e desafiadores de Los Angeles. Que p*rra era aquela?

Eu, com 9 anos, nem imaginava que o Guns N’ Roses cantava sobre heroína, uma cafetina e vinho barato, ruim e forte. Eu sabia pouco inglês: “Welcome to the jungle”, no meu caderno da escola, virou algo como “Yangou”.

A partir daí, cultivei as memórias de fã. Tentava tocar as músicas no violão com os livrinhos de cifras de papel jornal — com propaganda da Shop Music no verso — garimpados em bancas. 

Ouvi muito uma fita cassete do Appetite For Destruction, num walkman CCE, na primeira viagem longe dos meus pais. Enlouqueci esses mesmos pais com audições obsessivas à revelia deles. 

Travei uma pequena batalha para comprar os dois VHS do Use Your Illusion Tour de uma só vez. Selecionava e recortava fotos de revistas como a Top Rock para colar no fichário da escola. 

E havia, ainda, aquele cara de cabelos pretos cacheados, cobrindo os olhos; um ar cool, quase desinteressado; os lamentos em forma de solos que me inspiraram a tocar guitarra; a Gibson Les Paul largada abaixo da cintura; e o nome estranho: Slash.

***

Em 2012, recebi uma mensagem de um amigo. Diogo Salles, então chargista no Jornal da Tarde, havia recebido uma sugestão de pauta do editor de cultura do Estadão, Julio Maria. Mas achou que eu seria mais indicado para o trabalho. Quase me borrei nas calças, mas aceitei. A pauta? Uma entrevista, por telefone, com Slash. 

Diogo sabia que eu era fã de Guns, mas também sabia que não apelaria ao coração — que bateria forte, mas controlado pelo cérebro. O assunto seria seu álbum a ser lançado, Apocalyptic Love. Para ouvi-lo, recebi uma advance copy em formato MP3. Me sentia preparado — conhecia bem a carreira do Slash. Mas fui além, ouvindo o disco e pesquisando. Listei cerca de 20 perguntas. Sabia que nunca perguntaria tudo, mas queria ter opções.

O plano era ir ao Estadão com antecedência, entrar numa sala e atender o telefone, que faria a gravação da entrevista. Tudo andava bem. Conheci pessoalmente o Julio, senti o frisson da redação e revisei minhas anotações. 

No horário marcado, a assessora de imprensa do guitarrista me ligou no celular: a entrevista seria pelo telefone fixo — que nunca tocou. Ela voltou ao celular: tinha que ser por ali mesmo. Fiquei com as duas mãos tremendo: a da caneta e a do celular, um Nokia 1100 — cujos grandes atrativos eram a lanterna, uma bateria que parecia infinita e o Snake II, o famoso jogo da cobrinha.

Portanto, não teria gravação para ouvir depois. Me senti nos anos 90 de novo. Um telefone, uma caneta, um papel. E aquele frio na barriga. Anotei tudo o que consegui. Por sorte, Slash tem fala mansa e inglês claro.

No fim deu tudo certo1. Falamos sobre guitarras — assunto que acabou sem espaço na matéria —, seu processo criativo, a gravação do disco e sua então recente parceria com o vocalista Myles Kennedy, que perdura até hoje. Consegui até abordar o Guns N’ Roses — apesar do alerta da assessora para evitar o assunto. Era uma época em que Slash e Axl ainda brigavam via imprensa.

O curioso é que essa entrevista parece despertar grande interesse…até as pessoas descobrirem que foi “apenas” por telefone — o interesse some. Mas minha lembrança permanece. E às vezes penso naquele menino de 9 anos, deitado diante da TV. O que ele acharia disso tudo?