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Olho D’Água, um pequeno povoado de Alagoas. Quando “era só mato e estradinha de passar"1, viu surgir um albino estrábico que enxergava longe. Ainda menino, Hermeto Pascoal passou a brincar com sons, tocando escondido a sanfona de oito baixos do pai. Mais tarde, a curiosidade amadureceu em práticas diárias e convivência musical — gravações, palcos e grupos como o Quarteto Novo.

Para Hermeto, “a música verdadeira mesmo é a que você imagina”. Ele a imaginava em instrumentos musicais tradicionais, como o piano, e objetos do dia a dia — como um bule ou um copo. Brincadeira e seriedade não eram opostos: se misturavam. Buscava inspiração em florestas, cavernas, rios e ouvia tudo ao redor: “cada bicho tem seu timbre, um sotaque".

O que poderia parecer loucura era uma mente em combustão: a manifestação do "fogo sagrado”2. Seus hermetismos pascoais, como definido por Caetano Veloso em "Podres Poderes”. Nada disso era calculado. Ao contrário, Hermeto era emoção acima de tudo: “Eu não sou cara de saber, sou cara de sentir”.

Arquivo Pessoal

Vivenciei esse calor e o sentimento pela primeira vez no auditório Cláudio Santoro, em Campos do Jordão, no Festival de Inverno de 1996. Ele se apresentou ao piano, junto à Orquestra Jazz Sinfônica. Também "tocou” uma chaleira com água. Eu passei por diferentes emoções.

A intenção de Hermeto em vida foi fazer o que chamou de música universal. Criações sem amarras. Essa filosofia o norteou e a seus parceiros e discípulos em uma linguagem própria. Mais tarde foi apelidada de Escola Jabour, devido aos icônicos ensaios em sua casa nesse bairro do Rio de Janeiro. Era, afinal, uma ironia, já que ele não seguia “escolas”.

Arquivo Pessoal

Vi Hermeto pela última vez em 2022, no intimista Blue Note SP. Ele já apresentava algumas limitações, sem participar o tempo todo. Mas estava com a energia, bom humor e imaginação de sempre. Falou, se divertiu, tocou — até com um brinquedo. E deixou seu grupo brilhar. Ali, um misto de passagem de cetro e aprovação silenciosa. 

O sentimento que ficou foi o da simplicidade com que encarava sua arte, mesmo nos temas mais complexos. E o quanto ele respirava música. João Bosco o resumiu: "É a música que nasce da respiração. Você não sabe se a música é ele ou se ele é a música. É a natureza no seu estado mais perfeito. Ele tem uma naturalidade assustadora".

Talvez seja isso: Hermeto Pascoal não fazia música. Era música. E continuará sendo enquanto sua arte seguir viva em nossas mentes. E corações.

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“Tudo que eu fiz é sempre homenagem ao mundo. Quando eu voltar pro lugar onde nós vamos voltar um dia, quero deixar meu trabalho bem maravilhoso, que sirva pra todo mundo.””

— Hermeto Pascoal

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PS: “Entonce eu disse: adeus Hermeto, guarde consigo todo meu coração…” — Elis Regina:

[1] Citação de seu primo primo Aureliano Pascoal de Sousa no livro NUZZI, Vitor. Quebra tudo: a arte livre de Hermeto Pascoal. Kuarup, 2023

[2] "Sivuca sentiu no novato 'o fogo sagrado da música’” Ibid.

Referências e escutas:

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