midjourney a partir de claude

Nasceu em 1963, no Bairro da República, em São Paulo, o Centro Comercial Grandes Galerias. Hoje, nos habituamos a chamá-lo de Galeria do Rock. Um lugar marcado por transformações: começou com alfaiatarias, serigrafias e salões de beleza. Quando os shopping centers ganharam força, o movimento caiu.

Foi nesse vazio que a música entrou, nos anos 70, com lojas de discos, como Wop Bop, de René Ferri e Antônio Albuquerque, e a Baratos Afins, de Luiz Calanca. A galeria tornou-se ponto de encontro de colecionadores, músicos e quem via a música como mais do que entretenimento. Um prédio virou uma cena cultural.

Muitos proprietários não gostaram do novo perfil. Afinal, nos anos 1980, a Galeria ficou marcada pelas frequentes brigas entre punks, skinheads e headbangers. Além disso, pequenos furtos e comércio de drogas em seus corredores contribuíram com o afastamento de parte do público. Ficou uma imagem desgastada.

No começo dos anos 1990 ela se renovou, com união de lojistas, como Toninho da Galeria. A estratégia foi organizar a cena: fortalecer a associação de lojistas, ampliar a segurança e transformar um endereço conhecido pelas brigas em um dos principais símbolos da cultura urbana paulistana.

Já a minha história na Galeria começou no fim dos anos 1990, quando a música ainda predominava. Já via um ambiente mais estável que na década anterior, mas ainda afastava outros públicos: era comum sentir cheiros de urina e vômito nas escadas de concreto, que éramos obrigados a pegar, pois as rolantes não funcionavam. 

Quase todo mundo vestia preto. Quase todo mundo tinha cara fechada. Mas era só fachada. Estavam ali com um propósito: garimpar discos raros, que não estavam ao alcance no comércio mais tradicional. E conhecer pessoas que vivenciavam um estilo de vida similar. O lugar poderia ser chamado, por um desatento, de uma “galeria de malucos”. Mas está mais para “galeria de outsiders”.

Nos últimos anos, o perfil mudou: os espaços de roupa e acessórios predominam sobre os de discos. O público se diversificou, o ambiente ficou mais acolhedor, as escadas rolantes funcionam e odores duvidosos acabaram. Mas os outsiders continuam frequentando o local, seja como visitantes, seja como donos de redutos de discos.

Há uns poucos anos, resolvi fazer um passeio por lá. Recordar a juventude e procurar um ou outro álbum. Essa busca por discos, de loja em loja; o ritual de passar os olhos, pegar, perguntar e analisar é excitante — às vezes supera a sensação de comprar.

Passei pela clássica Baratos Afins, pela Zeitgeist e mais algumas. Estava procurando um álbum — em versão CD. Percorri mais duas ou três, sem sucesso.

Decidi que procuraria em uma última. Entrei num pequeno box, com as paredes forradas de prateleiras de madeira repletas de CDs. A iluminação era fraca. Não havia decoração. Eu supus que ali era um reduto purista de metal e rock. Dei de cara com um homem de cabelos cor de mel, levemente grisalhos e cacheados. Ele tinha a cara fechada e rugas fundas.

Vestia uma camiseta preta. Estava de braços cruzados, olhando para baixo. Perguntei se tinha o disco que eu procurava. Sem me olhar nem dizer nada, apenas cerrou os olhos e mexeu a cabeça de cima para baixo, só uma vez. Parecia um sim. Ainda assim, fiquei alguns segundos pensando se seria prudente fazer outra pergunta. O que saiu foi um tímido:

— Quais você tem?

Ele se virou e bradou:

— Fulano, mostra pra ele os discos do Pain of Salvation.

Surgiu, por uma pequena porta ao fundo, um rapaz um pouco mais novo, levemente calvo — também vestindo preto — e encontrou os CDs para mim.

Enquanto analisava minhas opções, ouvi uma moça entrando. Ainda do lado de fora, comentou com o acompanhante algo como:

— Vamos tentar só mais essa.

Ela entrou hesitante e pediu licença. Sua voz parecia cansada de procurar um certo disco. Pelo que eu imaginava daquele lugar, o pedido soava improvável:

— Você tem algum CD do One Direction?

Prendi a respiração. Sem olhar para trás — fingindo continuar concentrado nos meus CDs — esperei uma resposta desinteressada. 

Ou pior.

E veio a fala:

— Qual você quer?

Aliviada, ela chamou a pessoa que estava do lado de fora:

— Eles têm!

No fim, esqueci que a Galeria sempre acolheu outros tipos de outsiders além do meu.

Referências:

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